Se está a pensar tornar-se franchisado, esta notícia interessa-lhe diretamente: a Associação Portuguesa de Franchising (APF) admite que algumas marcas não vão resistir à atual conjuntura económica, sobretudo as mais jovens, as mais pequenas e as que operam em setores como a restauração, os ginásios e a estética. Antes de assinar um contrato e comprometer as suas poupanças, é fundamental saber distinguir uma rede sólida de uma marca frágil que pode não sobreviver aos próximos anos.
A diretora-geral da APF, Cristina Matos, foi clara: nem todas as marcas têm resiliência ou maturidade para se reinventarem numa fase de menor liquidez. Isto significa que a decisão de investir num franchising não se pode basear apenas no entusiasmo da primeira reunião com o franchisador. É preciso, como a própria responsável recomenda, fazer o trabalho de casa.
Porque é que algumas marcas de franchising estão em risco
Segundo a APF, os fatores que mais fragilizam uma rede de franchising são a falta de solidez financeira, a pouca maturidade no mercado e a incapacidade de investir em tecnologia e em novas formas de trabalho. As marcas mais recentes, com poucos franchisados (por vezes apenas quatro ou cinco unidades), tendem a ser as mais expostas, porque ainda não consolidaram um modelo de negócio testado nem têm capacidade financeira para apoiar a rede em períodos difíceis.
Há também um efeito de concentração: marcas mais fortes estão a comprar outras mais fragilizadas, como aconteceu com aquisições recentes no setor. Este movimento pode ser positivo para o mercado no seu conjunto, mas é também um sinal de que nem todos os conceitos vão sobreviver de forma independente.
Os setores mais expostos
- Restauração tradicional, mais sensível a cortes no consumo em refeições fora de casa
- Ginásios, frequentemente vistos como despesa supérflua em tempos de menor poder de compra
- Estética e serviços de bem-estar, igualmente afetados pela contração do consumo
Em contraciclo, setores como a intermediação de crédito tendem a beneficiar da crise, porque mais pessoas procuram renegociar contratos e rever as suas finanças.
Sinais de alerta antes de assinar um contrato
Antes de avançar para qualquer investimento, há sinais concretos que um aspirante franchisado deve procurar identificar junto do franchisador:
- Saúde financeira da rede: peça contas dos últimos anos, não apenas do franchisador mas, sempre que possível, de unidades já em funcionamento. Uma marca que evita partilhar dados financeiros deve gerar desconfiança.
- Turnover de franchisados: pergunte quantas unidades abriram e fecharam nos últimos anos. Uma rotação elevada é um indicador claro de insatisfação ou de um modelo de negócio pouco sustentável.
- Tempo de maturidade da marca: conceitos muito jovens, com poucas unidades abertas, ainda não provaram capacidade de resistir a ciclos económicos adversos.
- Apoio real à equipa: um franchisador sólido investe em formação, acompanhamento e, em momentos de crise, em flexibilização de royalties ou rendas. Pergunte o que a marca fez, na prática, durante períodos difíceis anteriores.
- Capacidade de adaptação tecnológica: marcas que não conseguem investir em novas formas de trabalho tendem a perder competitividade rapidamente.
Como proteger-se contratualmente
Para além da análise financeira e reputacional, o contrato de franchising deve ser lido com atenção redobrada. Alguns pontos a validar antes de assinar:
- Cláusulas de saída e condições de rescisão, incluindo prazos e eventuais penalizações
- Transparência sobre royalties, taxas de publicidade e outras contribuições obrigatórias
- Obrigações do franchisador em termos de formação, apoio operacional e atualização do modelo de negócio
- Exclusividade territorial e proteção contra a abertura de novas unidades muito próximas
- Condições previstas em cenários de dificuldade económica, como as que já foram aplicadas por algumas marcas durante a pandemia
Vale a pena recorrer a aconselhamento jurídico especializado antes de assinar qualquer contrato, e não hesitar em pedir referências a franchisados atuais e antigos da mesma rede.
O que isto significa para quem quer abrir um franchising
A mensagem da APF não é de alarme generalizado, mas de responsabilização: como recorda Cristina Matos, um franchisado não é um investidor que apenas coloca dinheiro e espera resultados, é alguém que trabalha ativamente para o sucesso do modelo de negócio. Isso implica escolher com critério, comparando diferentes opções antes de decidir. Uma boa forma de começar é explorar o elenco dos franchising disponíveis em Portugal e comparar solidez, maturidade e condições contratuais entre diferentes marcas e setores.
É também importante perceber que o próprio modelo de franchising pode ser uma proteção em tempos de crise, precisamente porque implica decisões partilhadas e apoio mútuo entre franchisador e rede. Mas essa proteção só existe se a marca escolhida tiver, de facto, solidez para a garantir. Acompanhar regularmente as últimas notícias do setor ajuda a perceber que movimentos de consolidação, fusões ou dificuldades estão a acontecer, e a antecipar riscos antes de investir.